21 de abril de 2019

 

querido Cesar,

 

e esse projeto, pode dar em algo? tenho me feito essa pergunta, quando penso numa decisão sobre meus próximos caminhos. e sei que pra ter certeza se um deles é esse projeto, só se eu começá-lo. assim, antes de partir na grande aventura que ele pode ser, fui aos seus arquivos à procura de um piloto. na minha mala:

• as fotos que você fez, e poucas onde você ficou na frente da câmera;
• um roteiro escrito à mão, na contracapa

do álbum 10x15;
• minhas câmeras analógicas, e pouco

filme nelas;
• a vontade de redescobrir a cidade,

agora pelos seus registros, e o desejo

em ver no que tudo isso poderia

se transformar.

estou em Recife.

Recife – PE,

Brasil

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Encontrando lugares em uma cidade que não conhecia – Os detalhes e as pessoas

e como você faz pra achar os locais exatos dessas fotos?

depois de uma observação detalhada de cada foto, vão surgindo grupos de elementos: a mesma roupa, que indica o percurso feito em um único dia; o mesmo local, mesmo que eu não conheça ou não saiba o nome; ou o mesmo tema – embora seja um que recurso que não facilite tanto para encontrar um local, pode ajudar com fotos de detalhes quase irreconhecíveis enquanto percorro ruas ou arredores de monumentos.

em seguida, recorro a quem conhece a cidade: além de histórias para compartilhar, essas pessoas podem ter palpites diferentes, já que 30 anos separam as fotos de hoje.

eu tive muita sorte em recife. me trouxeram livros de arquitetura, histórias marcantes, memórias de infância, e até impressionantes memórias fotográficas de ruas e casas.

"oi, você sabe onde fica a sala Gilberto Freyre?"
 

"tem certeza que é aqui? já tentou na outra ala?" – era o que eu ganhava como resposta, quando encontrava algum escritório com gente nos pisos superiores da Casa da Cultura. Ficamos por mais de uma hora, aguardando um senhor dar 3 telefonemas buscando a mesma informação para mim. Sem sucesso.

Até que uma moça passou e perguntou se poderia ajudar. Era Juliana, funcionária da instituição. Eu disse que estava procurando a Sala Gilberto Freyre. Ela disse que não existia uma sala com esse nome.
"Mas existiu em algum momento da década de 70", eu disse, mostrando a foto que tinha. Ela olhou a foto, o corredor de salas, a foto de novo.
"Você já tentou as outras alas?", ela perguntou.

Respondi que sim. Ela entrou no escritório e de lá saiu com Dora, também funcionária."Eu trabalho aqui desde 1981 e não me lembro de uma sala Gilberto Freyre", disse Dora.Conversamos sobre o projeto e ela me disse que era ótimo descobrir informações como a que eu tinha para a instituição, embora eu já desse minha busca por perdida e considerasse tirar uma foto de qualquer porta para o projeto.

 

"Achei, gente, olha aqui!", disse Juliana. Com a foto na mão, ela nos mostrou uma porta. Apontou um risco que formava um semicírculo no topo do portal de pedra. Depois, nos mostrou todas as outras portas: nenhuma delas tinha a mesma marca – o que caracterizava, então, a sala Gilberto Freyre da foto de César.

Graças a Dora e Juliana, fiz a foto.

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Memórias traiçoeiras &

 paisagens irreconhecíveis 40 anos depois 

no tempo que leva pro rolo acabar, nos dias que faltam até o retorno da viagem, na descoberta de um filme esquecido em alguma gaveta, nos dias até levar um rolo pro laboratório ou na espera da revelação das fotos – é aqui que moram os esquecimentos.

foi num momento desses em que César confundiu uma igreja, errou a ordem de algumas fotos;

foi num momento desses que não se lembrou

com tanta certeza. acontece. para ordenar

as fotos novamente, conversei com locais e redescobri pontos turísticos. por eles,

também cheguei à rota inicial das ruas

em que ele passou.

às vezes, o importante é estar mais atento aos detalhes fora das fotos – aqui está o porquê de visitar o mesmo lugar duas vezes

para encontrar uma casa.

Praia de Boa Viagem, 2019 o encontro com um arquiteto foi o que me permitiu fazer essa foto. ele conseguiu reconhecer à direita da foto um prédio pequeno – e ainda sabia o endereço de cor.

Na casa, quando cheguei, a anfitriã era uma artista. Quadros do chão ao teto: deferentes pinceladas, técnicas, traços e cores, para tentar dar conta das inúmeras e imprevisíveis mudanças dentor da gente, ao longo do que é viver.

Na praia, não foi preciso aguardar muito para um ver um grupo de pé na mesma configuração. No museu, um carrinho de picolé. Dentre mais de 20 portas iguais, uma mancha revela qual delas é a mesma de 1970.

Na orla, o que parecia ser irreconhecível em virtude da especulação imobiliária, um arquiteto nascido em Recife ajuda a encontrar nos detalhes, o ângulo certo. Nos casarões de mesmo estilo, a memória afetiva de uma pessoa em relação a uma rua localiza um endereço preciso.

As paisagens mudam. 40 anos depois, Recife não é mais a mesma. Não só as memórias de Cesar, mas as memórias dos outros fizeram a minha rota.

"tínhamos vista para a praia, agora já não se vê mais"

a faixa de areia, diminuindo a cada ano que passa

o prédio restaurado

a praça remodelada, para acompanhar o ritmo da cidade

notam-se os anos na altura das palmeiras

40 anos depois, tudo está diferente

até a estátua sem foco mudou de lugar